quarta-feira, 8 de março de 2017

OS INFERNOS DE ROTH





Ok, pode se escandalizar. Mas admita que você também pode se divertir com duas das mais nefastas criaturas literárias dos EUA


Dante que me perdoe, mas ninguém sabe construir um inferno melhor do que Philip Roth. Inferninhos, pra ser mais exato. Não daqueles de arrebalde ou beira de estrada. Não do tipo mal iluminado e cheio de figuras estranhas. Nada de bares suspeitos. Outro inferninho – pessoal, interno, internalizado, mas igualmente inferninho, pois que acelerado, disparado, caótico, sem limites. Um inferninho que faz da própria sordidez uma festa dionisíaca de misérias morais expostas. Você, eu, o leitor, nós nos divertimos em meio à repugnância – e, nisso, dissecamos o processo do sórdido da vez.

Que começou sendo Portnoy e, alguns anos depois, burilou seu próprio (mau) caráter a tal ponto que se tornou ainda pior – ou melhor, conforme a perspectiva de quem lê de fato o personagem. Virou Sabbath. Se o primeiro começava como um adolescente equipado com uma mente masturbatória insaciável – na medida exata da reação à repressão da cultura judaica ainda que não tão ortodoxa mas tanto pior quanto mais relativizada pelo meio (no caso, a classe média americana) – o segundo, com o perdão da extensão da frase (que quem já leu Roth não vai estranhar tanto, aposto) termina com o ocaso da mesma alma nefasta nos dias de velhice safada. Só mudaram o nome e ligeiras circunstâncias de endereço e profissão, se é que se pode falar assim.

Nem Bukowski foi tão longe. O caso é que Bukowski meio que se comprazia nas suas orgias, sugeria uma espécie de prazer superior em meio às maratonas alcóolico-sexuais. Deixava um certo rastro de superioridade em meio à miséria da raça, apesar de nem sempre se preocupar em reduzi-la ou julgá-la (muito pelo contrário). E ainda por cima fechava o porre com uma boa dose de niilismo que parecia justificar tudo. Não é o que acontece com Alex Pornoll e Mickey Sabbath, os personagens de dois dos principais livros de Phillip Roth, “O Complexo de Portnoy” e “O Teatro de Sabbath”. Eles não enxergam redenção alguma no que fazem, nem no nível existencial de sarjeta, se vocês me entendem. Pra eles, nada daquilo faz sentido algum. Daí os livros fazerem muito sentido pra quem os lê aqui do outro lado.





Como se sabe, ou não (eu não sabia até a velha biblioteca da Câmara dos deputados, logo ele; e uns vídeos banais de YouTube me informarem gentilmente), “O Complexo do Potnoy” é o primeiro dos mais importantes livros de Roth – e também o primeiro em que críticos literários que foram seus primeiros apoiadores tiveram imediatamente a providência primeira de lhe retirar aquele mesmo esteio inicial. Porque não suportavam as taras do monstruoso personagem. Curioso que justo críticos literários não tenham conseguido descolar o personagem do livro em si – ou, muito mais grave, do autor. Levaram tudo e todos a sério demais – e é preciso dizer que os dois livros aqui referidos são, antes de qualquer coisa, autênticas catedrais do bom humor.

Roth ficou na dele e escreveu uma série de outros livros sem tocar no assunto, como quem assovia uma valsa vienense em meio a um bacanal romano. Pois bem. Anos depois, sai-se com “O Teatro de Sabbath”, um compêndio de memórias e registros de um personagem ainda mais perverso, sexual e socialmente falando. Sabbath soa como Portnoy na velhice, como já disse aqui. Os livros se encadeiam perfeitamente, de maneira que o segundo foi uma espécie de resposta de Roth a quem se escandalizou com aquilo que parecia um escritor promissor até o lançamento do primeiro.
Confundiram o próprio Roth com Portnoy e com Sabbatn – o que não é tão difícil, já que a biografia dos três tem pontos em comum. Mas, para além de olhos esbugalhados de indignação letrada, por trás de cordilheiras de trepadas e rios de sêmen derramados por páginas e páginas, o que parece mesmo incomodar ambos – Portnoy e Sabbath – é a repressão cultural (muito além do murinho sexual, embora esse faça parte do pacote todo). É contra a convenção da tradição judaica, por sua vez cimentada pelos padrões do american away of life contra o qual os redutos em que vivem só aparentemente parecem se confrontar, que nossos dois tarados de estimação se põem a reagir.



E nisso, por serem tal qual são, imperdoáveis que nem um Trump enfurecido diante do quadrado em branco do twitter, é que podemos, junto com Roth, projetar neles todo o nosso potencial de malfeitos. Portnoy e Sabbath são como aqueles cadáveres sem nome que os estudantes de medicina usam para estudar o funcionamento do organismo humano. Eis a medicina da literatura – tantas vezes mais honesta que a de fato. E este último comentário bem que poderia vir de um dos dois personagens. Mas, como não sou nenhum deles, melhor parar por aqui.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Listão 2016 do Leitor Bagunçado



Desde o ano passado, evidências preocupantes já alertavam: o Leitor Bagunçado está ficando organizado demais. O apelido sapecado a título de me absolver desta mania feia de ler livros sem direção – ao mesmo tempo em que me conferia certo verniz livre-pensador – faz cada vez menos sentido. 

Tá difícil manter a (má) fama. A tradicional lista de livros lidos ao longo do ano é o bastante para, ano após ano, dinamitar aquela reputação durante construída.

O que fazer? Render-se às evidências, publicar a lista de 2016 – como sempre, com algum atraso – e, apesar dos pesares, manter o apelido nem que seja a título de chacota. Uma a mais não fará diferença. 

Pior seria mudar pra Leitor Organizado que, além de soar mal, sugere um ordenamento meio cacete que a esta altura dos fatos só cai bem em gente tipo Michel Temer – toc, toc, toc. 

Dito isso, vamos a parcas observações sobre a lista de 2016, que começou com muito bem com  “Um beijo e tchau” do desorganizado-mor (amém) Alex Nascimento e terminou, agorinha mesmo (ufa) com o primeiro livro da série Wild Cards, escrita por um punhado de feras das narrativas fantásticas que só não se torna uma bagunça literária porque tem um editor-geral, George R.R. Martin.

Pois são justamente as séries de livros, essa mania que parece ter surgido ao mesmo tempo em que as séries de TV (ilusão, talvez, já que basta fuçar um pouco pra descobrir que ambas são bem antigas), que estão fazendo do Leitor Bagunçado um cara muito mais organizadinho. E 2016 foi o ano das séries, trilogias e quejandos. 

Os três livros do “Millenium” de Stieg Larsson me jogaram sem dó nem piedade nesse mundo de narrativas que atravessam livros como delinquente que foge da polícia atropelando o trânsito. Não cheguei a ler o quarto livro da série, escrito por um amigo de Larsson após a morte deste. Mas tracei uma tetralogia, esta bem mais “lenta” do que as aventuras despirocadas de Lisbeth Salander: a série clássica de Yukio Missima, aberta com “Neve de Primavera” e encerrada com “A Queda do Anjo”. Margherite Duras adorou. Eu, que gosto da francesa desde 1985, não gostei muito. Subjetividade demais até pra alguém bem pouco objetivo como este Leitor Bagunçado. Mas fui até o fim, mantendo o hábito de nunca abandonar um livro pelo meio – eles não merecem, por piores que sejam.

Nem está na lista, mas pra me comunicar melhor com o mundo do meu filho Bernardo, de 9 anos, reli o primeiro Harry Potter – e gostei bem mais do que quando o fiz pela primeira vez, numa época ainda sem sombra de filhos. Devo continuar. Pra aprimorar pelo menos o inglês de leitura, também entrei na onda Bernardo e li os dois primeiros livros da série Percy Jackson, em que Rick Riordan tem a brilhante ideia de juntar o mundo adolescente pós-ipad e a mitologia grega. 

Nessa seara ainda meio adolescente, um romance juvenil com uma premissa ímpar: um garoto/garota que todos os dias acorda no corpo de alguém de sua idade, vivendo seus 17 anos em situações tão semelhantes (porque marcadas pela embalagem da mesma geração) quando diferentes (porque os dramas de cada um são os mais diversos). "Every Day" é mesmo muito original, e no meu caso mais ainda por ter sido a primeira floresta de letras em inglês que enfrentei munido de dicionário on line pelo menos até a primeira metade – depois disso, o vocabulário se calcifica e a gramática faz de tudo uma fruição só.

Teve poesia – e das boas. Tinha que vir da lavra feminina, muito bem representada pela minha amiga Jeanne Araújo, potiguar e seridoense como eu, cuja poesia conheci bem cedo e já farejando o tanto que poderia render. E como rendeu, em “Corpo Vadio” e “Monte de Vênus”, livros em que Jeanne usa a sensualidade como espada em fogo para abrir sua clareira particular nos canaviais cerrados da boa poesia. Jeanne incendeia propositadamente as próprias carnes de papel para extrair do que escreve uma pureza quase intocável. Parece Hilda Hilst, uma de suas predileções, mas é outra coisa, de uma natureza muito mais telúrica do que sexual. Quando nada porque seus versos parecem surgir no papel depois de socados num pilão mitológico instalado na dureza resistente da paisagem seridoense. A geografia em torno molda uma poesia, sabemos. E a outra poeta que acompanha Jeanne na minha lista confirma isso: foi um apanhado da poesia feita por Elizabeth Bishop quando de suas temporadas no Brasil (em tradução de Paulo Henriques Britto).

Em 2016, aqui graças à Biblioteca da Câmara dos Deputados (esse tesouro onde não canso de descobrir pepitas literárias, mesmo as mais conhecidas), finalmente li Saul Bellow, assim como retornei a Paul Auster. 

Do acervo pessoal, recuperei um Eduardo Gianetti da Fonseca que muito me consolou (via conhecimento, o que nunca é alienante mesmo sendo analgésico) diante da situação brasileira que só se agravou ao longo do ano. Era um velho livro que sempre foi um dos preferidos de Rejane – e que sempre esnobei, admito. Estava enganado – e como feliz penitência já estou com o novo livro de Gianetti (Trópicos Utópicos, lançado ano passado) pra incluir na lista de 2017.

Uma descoberta: o português Valter Hugo Mãe, que, embora a comparação soe redutora, pareceu-me uma feliz mistura de Saramago com Guimarães Rosa. Uma recuperação: “A Viagem de Theo”, compêndio narrativo que passa pelas religiões de todo o mundo e de que muito havia ouvido falar anos atrás. Uma decepção: “O Escaravelho do Diabo”. Não era pra tanto mas, admito, posso ter lido com 40 anos de atraso. Uma atualização: “Cleo e Daniel”, também lido muito depois da época em que marcou corações e cabeças; também sem muito impacto, o que certamente se explica pela extemporaneidade. Mas, enfim, grandes livros devem sobreviver ao painel histórico e cultural em que foram lançados, não?

Segue a lista:

·                     WILD CARDS LIVRO 1 / O COMEÇO DE TUDO - Editado por George R. R. Martin
·                     AS ILHAS DA CORRENTE - Esnest Hemingway
·                     ADEUS, HEMINGWAY - Leonardo Padura
·                     O FILHO DE MIL HOMENS - Valter Hugo Mãe
·                     CLEO E DANIEL - Roberto Freire
·                     CIDADEZINHAS - John Updike
·                     DEFIZ 75 ANOS - Rubem Alves
·                     MILLENIUM 3 - A RAINHA DO CASTELO DE AR - Stieg Larsson
·                     PERCY JACKSON - THE LIGHTNING THIEF - Rick Riordan
·                     A NOITE DO MEU BEM - Ruy Castro
·                     COELHO CORRE - John Updike
·                     MILLENIUM 2 - A MENINA QUE BRINCAVA COM FOGO - Stieg Larsson
·                     RIMBAUD - Jean-Baptiste Baronian
·                     VÍCIOS PÚBLICOS, BENEFÍCIOS PRIVADOS? - Eduardo Gianetti da Fonseca
·                     CORPO VADIO - Jeanne Araújo
·                     MONTE DE VÊNUS - Jeanne Araújo
·                     MILLENIUM 1 - OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES - Stieg Larsson
·                     PERCY JACKSON / THE SEA OF MONSTERS - Rick Riordan
·                     POEMAS DO BRASIL - Elizabeth Bishop (trad: P.H. Bitto)
·                     O PLANETA DO SR. SAMMLER - Saul Bellow
·                     LEVIATÃ - Paul Auster
·                     EVERY DAY - David Levithan
·                     O ESCARAVELHO DO DIABO - Lúcia Machado de Almeida
·                     A QUEDA DO ANJO - Yukio Mishima
·                     O TEMPLO DA AURORA - Yukio Mishima
·                     CAVALO SELVAGEM - Yukio Mishima
·                     NEVE DE PRIMAVERA - Yukio Mishima
·                     OS ÚLTIMOS DIAS DOS NOSSOS PAIS - Joël Dicker
·                     AS DUNAS VERMELHAS - Nei Leandro de Castro
·                     A VIAGEM DE THÉO - Catherine Clément
·                     CARLA LESCAUT - Cefas Carvalho
·                     AS PEQUENAS HISTÓRIAS - Osair Vasconcelos
·                     UM BEIJO E TCHAU - Alex Nascimento


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Já deu um aperto na sua pós-verdade hoje?


Apertem os cintos: estamos entrando na era da pós-verdade

Por Carlos Castilho, do Observatório da Imprensa, em 28/09/2016 na edição 921

Pós verdade parece mais uma expressão de impacto para chamar a atenção de um público saturado de informações e inclinado para a alienação noticiosa. Mas o fato é que estamos diante de um fenômeno que já começou a mudar nossos comportamentos e valores em relação aos conceitos tradicionais de verdade, mentira, honestidade e desonestidade , credibilidade e dúvida.
As evidências desta nova era estão nas manchetes de jornais, em declarações como as do candidato republicano Donald Trump ou nas dos procuradores e acusados na Lava Jato. Se antes havia verdade e mentira, agora temos verdade, meias verdades, mentira e afirmações que podem ser verdadeiras, conforme afirma o escritor norte-americano Ralph Keyes, o autor do livro The Post Truth Era: Dishonesty and Deception in Contemporary Life (St. Martin’s Press, 2004. ISBN 978-0-312-30648-9).
Quando Trump afirmou num discurso que o presidente Barack Obama foi um dos fundadores do Estado Islâmico, até os ultraconservadores norte-americanos acharam que ela estava exagerando. Mas o candidato republicano não se abalou, nem mesmo na televisão, quando explicou que Obama permitiu o surgimento do grupo radical islâmico porque este cresceu no vácuo politico deixado no Iraque pelo que Trump classificou de fracassos da diplomacia do presidente norte-americano. A polêmica criada em torno da afirmação gerou a percepção de que ela poderia ser verdadeira. Foi o suficiente para que Trump saísse ileso da discussão.
Os conservadores transformaram a insegurança pública num dos seus carros chefes na campanha pela implantação da doutrina do medo social, como forma de domesticar a população. Mas eles negam a evidência estatística de que na maioria dos grandes centros urbanos do planeta a incidência de crimes diminuiu em relação ao número de habitantes. A explicação para a discrepância entre a sensação de insegurança e as estatísticas criminais é complexa e exige uma boa dose de esforço e isenção. É mais fácil partir para aquilo que uma parte do publico quer ouvir.
A “cognição preguiçosa”
É um caso típico de aplicação da teoria da “cognição preguiçosa”, criada pelo psicólogo e prêmio Nobel Daniel Kahneman, para quem as pessoas tendem a ignorar fatos, dados e eventos que obriguem o cérebro a um esforço adicional.
Aqui no Brasil, a pós verdade é nítida no caso das investigações da Lava Jato. Separar o joio do trigo no emaranhado de versões e contra versões produzidas pelas delações premiadas é bem complicado. Há poucas dúvidas sobre a existência de esquemas de propinas, caixa dois eleitoral, superfaturamento, formação de cartéis e enriquecimento de suspeitos, mas provar cada um deles com base em evidências é uma operação complexa e demorada. Em alguns casos até inviável dada a sofisticação dos esquemas adotados pelos suspeitos de corrupção.
Mas como existe o interesse político envolvendo a questão e como existe a “cognição preguiçosa”, as convicções passam a ocupar o espaço das evidências e provas. A dicotomia jurídica clássica entre o legal e o ilegal passa a ser substituída por justificativas tipo “domínio do fato”, ou seja, convicções construídas a partir da repetição massiva de percepções individuais ou corporativas, pelos meios de comunicação.
Segundo a revista The Economist, o mundo contemporâneo está substituindo os fatos por indícios, percepções por convicções, distorções  por vieses. Estamos saindo da dicotomia tradicional entre certo ou errado, bom ou mau, justo ou injusto, fatos ou versões, verdade ou mentira para ingressarmos numa era de avaliações fluidas, terminologias vagas ou juízos baseados mais em sensações do que em evidências. A verossimilhança ganhou mais peso que a comprovação.
A pós verdade, um termo já incorporado ao vocabulário da mídia mundial, é parte de um processo inédito provocado essencialmente pela avalancha de informações gerada pelas  novas tecnologias de informação e comunicação (TICs). Com tanta informação ao nosso redor é inevitável que surjam dezenas e até centenas de versões sobre um mesmo fato. A consequência também inevitável foi a relativização dos conceitos e sentenças.
Mas o que parecia ser um fenômeno positivo, ao eliminar os absurdos da dicotomia clássica num mundo cada vez mais complexo e diverso, acabou gerando uma face obscura na mesma moeda. Os especialistas em informação enviesada ou distorcida (spin doctors no jargão norte-americano), aproveitaram-se das incertezas e inseguranças provocadas pela quebra dos paradigmas dicotômicos para criar a pós verdade, ou seja, uma pseudo-verdade apoiada em indícios e convicções já que os fatos tornaram-se demasiado complexos.
A herança de Goebbels
Diante das dificuldades crescentes para materializar a verdade por conta da avalanche informativa, especialmente na politica e na econômica, criaram-se as pós verdades, ou factoides (no jargão brasileiro), onde a repetição e a insistência passam a ocupar o espaço das evidências.
Na era da pós verdade, as versões ganharam mais importância do que os fatos, o que não é bom e nem mau. É simplesmente uma realidade. O que chamamos de fatos, na verdade são representações de um fato, dado ou evento desenvolvidas pela mente de cada indivíduo.
Assim, teoricamente, podemos ter um número de representações de um mesmo fato igual ao número de seres humanos no planeta Terra. E como as TICs permitem a disseminação massiva destas representações ou percepções, fica fácil intuir a complexidade da avaliação de fatos, dados ou eventos.  “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade”,  a controvertida máxima cunhada pelo chefe da propaganda nazista, Joseph Goebbels, tornou-se preocupantemente atual.
Os meios de comunicação, principalmente a imprensa, ganharam um papel protagônico no fenômeno da pós-verdade porque a circulação de mensagens passou a ser o principal mecanismo de produção de novos conhecimentos numa economia digital movida a inovação permanente. A relevância conquistada pelos meios de comunicação os transformou em agentes fundamentais no processo que prioriza uma forma de descrever a realidade. Quando a imprensa norte-americana endossou a tese da existência de armas de destruição maciça no Iraque de Saddam Hussein, ela  deixou de lado a verificação dos fatos e foi decisiva na transformação de uma possibilidade em certeza acima de suspeitas.
Teoricamente a pós verdade pode ser usada tanto pela esquerda como pela direita no terreno politico, mas como a imprensa joga um papel fundamental no processo, os rumos obviamente serão determinados pela ação de jornais, revistas, meios audiovisuais e pelas redes sociais. A imprensa portanto, não é uma observadora mas uma protagonista do processo de transformação de mentiras ou meias verdades em fatos socialmente aceitos.
A pós verdade e o jornalismo
A pós verdade é apenas um dos itens da era digital que estão abalando nossas crenças e valores. Nós jornalistas e toda a sociedade estamos vivendo um momento de insegurança e incertezas porque estamos passando de um contexto social para outro.  Esta insegurança não é um fenômeno inédito na humanidade porque já aconteceu antes quando grandes inovações tecnológicas alteraram radicalmente o contexto social da época. Basta ver o que ocorreu após a invenção da pólvora, dos tipos móveis por Gutemberg, da máquina a vapor e dos processos de produção industrial.
Um dos grandes, talvez o maior de todos, dilemas enfrentados pela sociedade atual, é a necessidade de conviver com a complexidade do mundo contemporâneo. Tomemos o caso da polêmica científica sobre o meio ambiente. É um tema complexo onde o bombardeio informativo confunde as pessoas comuns com afirmações contraditórias entre cientistas e pesquisadores. Do ponto de vista dos cientistas é natural que existam posicionamentos distintos mas para o público, acostumado pela imprensa a esperar verdades absolutas, as contradições e divergências geram incertezas, que acabam conduzindo ao descrédito generalizado.
A pós verdade coloca para nós jornalistas o desafio da repensar a credibilidade e os parâmetros profissionais para avaliar dados, fatos e eventos. Não é uma casualidade o fato da credibilidade da imprensa, em países como os Estados Unidos, estar hoje num dos pontos mais baixos de sua história. O leitor está cada vez mais confuso e desconfiado em relação à imprensa. É uma resistência intuitiva ao fenômeno da complexidade informativa gerada pela internet.
A pós verdade é talvez o maior desafio para o jornalismo contemporâneo porque ela afeta a relação de credibilidade entre nós e o público. A nossa atividade está baseada na confiança das pessoas de que o que publicamos é verdadeiro. Quando uma nova conjuntura informativa interfere nesta confiabilidade, temos serias razões para nos preocupar, e muito, sobre o futuro da profissão.

domingo, 6 de novembro de 2016

Atualizando (ou "o espírito do tempo")



Tem aquela palavra em alemão difícil de pronunciar e fácil de entender, perfeita para explicar justamente o que parece não caber numa palavra. Zeitgeist, o tal espírito do tempo. Que tem sido péssimo, que aponta para piorar mais ainda, que não nos deixa dormir bem a não ser que todas as janelas informativas sejam cuidadosamente fechadas pelo menos três horas antes de qualquer pessoa sensata, sensível e minimamente inteligente ir para a cama. Lapsos se abrem, é natural. Blogs são abandonados à própria sorte. Um rascunho de post à deriva na lama da desinformação tubinada que, apesar de tudo, em certas horas ainda reflete a luz de uma lua torta. 

Muito pra dizer, mas pra quê? Por mais que se dê voltas, sempre se corre o risco de cair, desavisadamente, num buraco oculto no asfalto, a melhor embora mais acidental tradução para o tal espírito do tempo (o atual, por favor). Faltou falar de Aquarius, tão mal compreendido, erroneamente - e o pior, propositadamente - lido, tomado por partes que sozinhas nem fazem sentido enquanto o todo, esse monstro que vem a ser outra cara do espírito do tempo, não perdoa em sua implacabilidade. 



O filme não é sobre política pequena, nem pode ser reduzido a um thriller social, um drama banal: é tudo isso superlativamente superposto em camadas que vão sendo cimentadas umas sobre as outras, resultando no mais acabado espírito do tempo made in Brazil dos nossos dias. Glauber Rocha que morra de inveja, mas o pernambucano lhe ocupou o lugar. 

Tanto a dizer, palavras perdidas no abandono da autoeditoração que tanto permite quando desautoriza. Faltou falar de A Repartição do Tempo, um bólido cinematográfico que vem aí para nos desfatigar as retinas drummonianas nesses meses recentes, ao reerguer em forma de comédia amalucada, ligeiramente puxada ao ritmo de um distante Guy Ritchie, a nossa já tradicional dramaturgia do serviço público. Vide a era do Palhares de Nelsão, em crônicas, romances seriados ou quadros do Fantástico. 


Nada do involuntário tédio em sépia dos aspones e seriados apocalípticos globais, onde ceticismo rima com tédio. Necas, que aqui o aproach é mais do tipo agulha na epiderme: provocações algo nonsense num filme onde o grafismo narrativo é aplicado a certa preguiça crônica do funcionalismo brasileiro. É claro que aquela repartição é um microcosmos de algo mais, colega. E o colega, que vem a ser isso mesmo (o diretor Santiago Dellape, com quem dividimos mesas funcionais na tevê da Câmara dos Deputados), está  vestido de autoridade para tripudiar não só do funcionalismo como de todas as outras piadas já feitas sobre isso. 

Se bem que a redação da TV Câmara, onde labutamos com fervor, orgulho e maestria em turnos ininterruptos de oito horas e meia diárias, nada tem a ver nem com o restante do funcionalismo legislativo e menos do que se imagina com uma redação jornalística convencional. Salto para a mais clássica de todas, in Brasil: a do JB cantada em prosa, versos e memórias dos anos 60 até seu lastimável fim. E na Piauí em bancas, Joaquim Ferreira dos Santos maltrata, meticulosamente, cada microfibra da nossa saudade ao lembrar o santificado espaço de uma pretérita Avenida Brasil. 






Não, nada disso - não é preciso ter trabalhado no JB de então como fez o saudoso Luciano Herbert desde Natal (dividindo o batente com a Tribuna do Norte e o Banco do Brasil) pra entender, sentir, sofrer esse missing you. Basta ter sido um leitor do JB nos anos 80, um estudante de jornalismo em igual período, um brasileiro que, por mais que tentem, não consegue, como uma certa Clara pernambucana, aderir aos tempos atuais. E aí está ele, novamente, em grande estilo, technicollor, para todo o Brasil ou com z ou com s: o espírito do tempo. 



Leia a memória de Ferreira na Pauí e experimente lembrar de quem você era, o que fazia, os amigos que tinha, o miserê que gratificava, o companheirismo que compensava, o divertir-se que criava. Está tudo lá, porque a redação do JB era, como Aquarius e as piadas cínicas pero divertidas e inquietas da Repartição do Tempo, um cartaz e tanto de uma época que tem muito o que dizer aos carreiristas prematuros do mês passado, incapazes de guardar o que quer que seja no bolso dos afetos do ano corrente. 

*A propósito, lembro aos distraídos: Aquarius já está disponível no cardápio do Telecine da plataforma NOW, da monopolista Net global.  

*A propósito (2): Luciano, rapaz, você não está perdendo nada. 

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Me debato no debate




Pra curar a ressaca dos shows olímpicos, nada como o debate eleitoral pela prefeitura de São Paulo

Eu não tenho nada a ver com isso. Não moro em São Paulo. Só estive nessa cidade pouquíssimas vezes, e sempre de passagem. Perdi 80 por cento do meu interesse, digamos, “eleitoral” pela política – embora, numa visão menos apressada, seja quase impossível não se posicionar politicamente diante de um país tão errático, admito. Enfim, não havia motivo algum pra acompanhar o debate entre os candidatos a prefeito da maior cidade do país e da América do Sul na noite dessa segunda-feira.

Mas o chrome cast estava ali à mão, eu tinha lido sobre o debate nos jornais do dia (o que sempre é uma isca, a leitura dos jornais, pra uma série de outras coisas), tinha curiosidade por ver como se posicionaria a Marta ex-PT. E também queria conferir como o modo-de-estar-no-mundo estilo almofadinha de Dorinho Júnior funcionaria, ou não, no embate de uma campanha eleitoral. Enfim, assisti ao debate.

Primeiro, fiquei quase deprimido. Não com os candidatos. Nem mesmo com o Major Olímpio – que me alegrou imensamente por proporcionar a visão do quanto o cafajestismo político da era do impeachment de Dilma soa mal num programa de tevê desse tipo (sim, porque antes de mais nada, eleição à parte, debate eleitoral é puro programa de tevê; precisa sobretudo entreter, caso contrário não cabe no modelo que caracteriza historicamente a televisão brasileira, e é incrível que muita gente que trabalha em tevê ignore isso).

Piedade

Retomando, por que eu fiquei deprimidão? Na medida em que os problemas da cidade de São Paulo iam sendo desfiados qual uma renda amaldiçoada que fosse estendida sobre a metrópole e seus incautos habitantes, eu passei a sentir uma imensa empatia com essas agoniadas pessoas. Meu Deus, tende piedade: como é ruim morar em São Paulo, especialmente se você é pobre – estatisticamente pobre, que fique claro.

Quanta mazela, lerdeza, obstáculos, provações urbanas. Eu no lugar de um candidato qualquer daqueles aproveitaria pra engatar um choro teledramático captador de milhões de votos, porque motivos não faltavam. Não existe vida minimamente regular, tranquila, reta, banal em SP, Criolo Doido? Junte trânsito, bicicleta, CEU, ciclovia, saúde pública ruim, escola com ou sem aprovação automática, faixa exclusiva, faixa de atropelamento, reserva de ar ou poluição para todos, parece que nada tem jeito, tudo está perdido. Não é possível, isso tudo só pode ser praga de Jânio Quadros, embora digam que antes dele a coisa já não era das melhores. Porque não foge todo mundo pra... Pirajú, por exemplo? Tem uma represa massa, neblina e sombra nas noites de julho, uma beleza. E fica perto. Deixa pra lá.

Quem ganhou o debate? O Diabo, em pessoa. Uma espécie de diabo urbano que se infiltra das cracolândias aos pancadões, pegando só de maldade os moradores dos jardins e morumbis azumbizados pelo cerco inevitável. É impraticável manter o bom nível de um debate em meio a tanto caos, mas como no Brasil tudo é possível – e em São Paulo mais ainda – o fato é que ao final todos sobreviveram. Até o Major Olímpio, com sua bela contribuição já citada aqui, mostrando o quanto o primarismo político pode soar grotesco.

Marta me surpreendeu pela naturalidade bem articulada – o avesso do avesso do avesso de Dilma – que usou até pra transformar confissão de erro em autoelogio possível. Dorinho Júnior foi aquele tatibitate de condomínio enfeitado com plantas de plástico – surpresa alguma, o que no caso dele não deixa de ser esclarecedor para o eleitor em geral. Gostei de Haddad, que manteve uma tranquilidade meio cabeça erguida mesmo servindo de pau de sebo pra tanto marmanjo (Marta incluída, porque política não tem sexo, né, pessoal?).

Faltou alguém...? Ah, Russomano, claro, que pra mim... ele estava mesmo lá? Não notei muito a presença do campeão das pesquisas. Mas como é que o mais atacado, lá embaixo nas pesquisas – Haddad – até que se sobressai enquanto o favorito parece ter no máximo mandado um clone inexpressivo pra representá-lo? Elementar, meu caro Caetano: estamos em Sampa; aquele lugar politicamente de pernas para o ar onde tudo pode acontecer e cuja prefeitura qualquer um pode ganhar. Independente da lógica, da história, dos argumentos, das posições políticas e, por que não, dos debates.

*E a irracionalidade política chegou a tal ponto que nem me dei conta da ausência de Erundina. Amigos no Facebook me chamam atenção para isso. Se eu não notei, magine o grosso do eleitorado. Triste baía aterrada de Piratininga.